Sociedade em Comum e de Fato: O Que São e Quais os Riscos para o Empreendedor
No mundo dos negócios, muitas vezes as parcerias começam de forma informal, com base na confiança e em um aperto de mão. No entanto, essa informalidade pode gerar uma situação jurídica específica e arriscada: a sociedade em comum ou sociedade de fato. Se você e um ou mais parceiros estão exercendo uma atividade empresarial em conjunto, mas não formalizaram essa união com um contrato social registrado na Junta Comercial, é muito provável que estejam em uma dessas situações.
Este cenário é mais comum do que se imagina e atinge sócios, empresários e administradores em todo o Brasil que, por agilidade ou desconhecimento, postergam a burocracia da abertura formal de uma empresa. Embora a atividade possa parecer que está funcionando bem, a falta do registro traz uma série de implicações legais que podem colocar em risco o patrimônio pessoal de todos os envolvidos.
Compreender a natureza da sociedade em comum é crucial para a segurança do negócio e dos sócios. A legislação, com base nos arts. 966 a 1.195 do Código Civil, estabelece regras claras para as sociedades empresariais. Quando essas regras formais não são seguidas, a lei aplica um regime especial, previsto no próprio Código Civil, que trata da sociedade não personificada.
Neste conteúdo, vamos esclarecer o que caracteriza uma sociedade em comum, os riscos jurídicos e práticos dessa condição e os caminhos para sair dela, protegendo você, seus parceiros e o futuro da empresa.
O que você precisa saber sobre Sociedade em Comum e de Fato
A principal característica de uma sociedade em comum é a ausência de personalidade jurídica própria. Isso significa que, perante a lei, não existe uma nova pessoa (a empresa) distinta dos sócios. O que existe é um conjunto de pessoas (os sócios) que atuam em conjunto para um fim econômico. Essa situação se configura independentemente da existência de um acordo verbal ou mesmo escrito entre as partes – o que importa é a realidade dos fatos: a colaboração com intuito de lucro.
O Código Civil, em seu artigo 103, ao tratar do uso comum de bens, introduz um princípio que também se reflete aqui: a administração e as regras do que é comum devem ser estabelecidas. Na falta de um registro que crie uma pessoa jurídica, a sociedade em comum é regida pelas normas do Código Civil aplicáveis a essa situação específica, e os sócios respondem de forma solidária e ilimitada pelas obrigações sociais. Ou seja, um credor pode cobrar a dívida da empresa de qualquer um dos sócios, usando inclusive seus bens pessoais.
É importante notar que o artigo 1.573 do Código Civil, que lista motivos para a impossibilidade da comunhão de vida no direito de família, serve como um paralelo conceitual para entendermos a fragilidade da sociedade irregular. Assim como os motivos listados podem desfazer a comunhão conjugal, a falta de confiança, desentendimentos graves ou a conduta desonrosa de um sócio (conceito também mencionado no inciso VI do referido artigo) podem tornar insustentável a sociedade em comum, levando ao seu dissolução de forma conturbada e prejudicial a todos.
Requisitos e Situações que Caracterizam a Sociedade em Comum/De Fato
- Exercício de atividade empresarial em conjunto: Dois ou mais pessoas dedicam-se profissionalmente a uma atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços.
- Intuito de lucro: O objetivo central da colaboração é a repartição dos resultados financeiros obtidos.
- Contribuição comum: Cada sócio contribui com capital (dinheiro, bens) ou trabalho para o empreendimento.
- Ausência de registro: Não há contrato social registrado na Junta Comercial (para sociedade empresária) ou no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas (para sociedade simples).
Providências e Documentos Importantes
- Contrato Social ou Estatuto: É o documento fundamental que deve ser elaborado, mesmo que a sociedade já esteja em funcionamento. Ele define as regras do jogo.
- Registro Público: O registro do contrato social é o ato que confere personalidade jurídica à sociedade, transformando-a em uma entidade distinta dos sócios.
- Acordo de Sócios (em alguns casos): Para sociedades mais complexas, um acordo de sócios pode detalhar aspectos não previstos no contrato social.
- Regularização Fiscal e Previdenciária: A sociedade regularizada obtém CNPJ próprio, permitindo a emissão de notas fiscais e o correto recolhimento de tributos.
Situações Comuns e Riscos Enfrentados
Muitos empreendedores se veem em uma sociedade de fato ao:
- Iniciar um negócio com um familiar ou amigo sem formalizar a papelada.
- Comprar uma participação em um negócio existente sem alterar o registro oficial.
- Permitir que um funcionário ou colaborador passe a tomar decisões e compartilhar lucros, tornando-se, na prática, um sócio.
O maior risco é a responsabilidade solidária e ilimitada. Se a sociedade contrai uma dívida com um fornecedor, com o fisco ou em um processo judicial, qualquer sócio pode ser acionado para pagar a totalidade com seu patrimônio pessoal. Além disso, a dissolução da sociedade, na falta de um contrato, pode gerar grandes conflitos, pois não há regras claras para a partilha dos bens e a apuração de haveres.
Orientação Final: Se você identifica que sua operação se enquadra como uma sociedade em comum, o caminho mais seguro é buscar a regularização imediata. A elaboração e o registro de um contrato social não são meras formalidades; são atos de proteção. Eles criam um escudo entre o patrimônio da empresa e o patrimônio dos sócios (limitando a responsabilidade, nas sociedades por cotas ou ações), estabelecem regras de governança, definem como serão tomadas as decisões e como um sócio pode sair do negócio. Consultar um advogado especializado em direito empresarial é o primeiro passo para transformar uma parceria informal em uma sociedade segura e preparada para crescer.
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Falar com Advogado EmpresarialÉ comum surgirem dúvidas sobre a sociedade em comum. Qual a diferença entre sociedade em comum e sociedade de fato? Na prática, os termos são frequentemente usados como sinônimos no meio jurídico para designar a sociedade não registrada. Ambos se referem à mesma realidade fática de colaboração empresarial sem personalidade jurídica.
Como provar que existe uma sociedade em comum? A prova é feita por todos os meios admitidos em direito. Isso inclui testemunhas que confirmem a atuação conjunta, troca de e-mails e mensagens discutindo o negócio e os lucros, extratos bancários que mostrem entradas e saídas compartilhadas, contratos com clientes ou fornecedores assinados pelos sócios, e qualquer documento que demonstre a contribuição de cada um e a intenção de dividir os resultados.
Preciso de advogado para regularizar uma sociedade de fato? A assessoria de um advogado especializado é altamente recomendada e, para o registro do ato constitutivo na Junta Comercial, é obrigatória a assinatura de um advogado. O profissional não apenas redige o contrato social em conformidade com a lei, mas também analisa a situação pré-existente, regulariza eventuais passivos e estrutura a sociedade de forma a prevenir futuros conflitos e limitar a responsabilidade dos sócios, quando possível.
Qual o prazo para regularizar uma sociedade em comum? Não existe um prazo legal determinado para a regularização. No entanto, quanto mais tempo a sociedade operar na informalidade, maiores são os riscos acumulados de responsabilização pessoal dos sócios por dívidas trabalhistas, tributárias ou comerciais. A regularização deve ser vista como uma prioridade para a segurança jurídica do empreendimento.
O que acontece se a sociedade em comum for processada? Em um processo judicial, a ação será movida contra todos os sócios, nominalmente, já que a sociedade não tem personalidade jurídica para figurar no polo passivo. A sentença, se condenatória, poderá ser executada contra o patrimônio de qualquer um dos sócios, independentemente de quem geriu o negócio no momento do fato que gerou a dívida. Essa é a concretização do risco da responsabilidade solidária.
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